top of page

Primeiros Socorros e Avaliação Inicial do Queimado

Análise científica dos preditores de complicações, limiares críticos de SCQ e disfunções metabólicas no manejo avançado do paciente queimado.

1. Cuidados Imediatos e Primeiros Socorros (Na Cena)

O atendimento inicial no local do acidente é crucial para conter o avanço da lesão tecidual, aliviar o sofrimento do paciente e evitar complicações graves.

Interromper o processo de queimadura

  • Afastamento do agente térmico: A primeira medida é remover a vítima da fonte de calor de forma segura para o socorrista.

  • Técnica "Parar, Deitar e Rolar" (Stop, Drop and Roll): Se as roupas da vítima estiverem em chamas, é necessário orientá-la a parar, deitar e rolar no chão para abafar o fogo. Deve-se evitar que a vítima corra, pois o ar alimenta as chamas.

  • Cuidados específicos:

    • Queimaduras elétricas: Desligar a fonte de energia antes de tocar na vítima para evitar novos acidentes.

    • Queimaduras químicas: Remover as roupas contaminadas e irrigar a área afetada com água corrente em abundância para diluir e remover a substância química.

Resfriamento da lesão

  • Aplicação de água corrente: Irrigar a lesão com água corrente limpa e à temperatura ambiente por 10 a 20 minutos.

  • Benefícios do resfriamento: O resfriamento imediato reduz a dor, diminui a formação de edema e limita a progressão em profundidade da lesão, preservando a área de estase tecidual.

  • Janela terapêutica: A irrigação traz maiores benefícios quando realizada imediatamente, mas ainda apresenta eficácia se iniciada em até 3 horas após o acidente.

Remoção de acessórios e roupas

  • Prevenção de constrição: Retirar imediatamente anéis, pulseiras, relógios, cintos e roupas que não estejam grudadas na pele. O edema (inchaço) instala-se de forma rápida e esses objetos podem atuar como garrotes, causando isquemia das extremidades.

  • Roupas aderidas: Roupas que estiverem coladas à pele queimada não devem ser arrancadas; deve-se cortar ou remover apenas o tecido ao redor.

Alerta contra a Hipotermia

  • Regra essencial: "Resfriar a ferida, aquecer o paciente".

  • Controle da temperatura: Embora o resfriamento local seja necessário, a perda da barreira cutânea compromete a termorregulação do organismo. Portanto, deve-se manter as áreas não queimadas cobertas e aquecidas com lençóis limpos ou mantas térmicas, com atenção redobrada em crianças e idosos.

O que não fazer nos primeiros socorros

  • Não usar gelo ou água gelada: O frio extremo provoca vasoconstrição, o que pode aprofundar a lesão na pele e induzir à hipotermia sistêmica.

  • Não aplicar produtos caseiros ou pomadas: Manteiga, creme dental, óleos, borra de café, sabão ou pomadas sem prescrição não devem ser aplicados. Esses produtos retêm o calor, podem agravar a queimadura, favorecem infecções e precisarão ser retirados dolorosamente pela equipe médica.

  • Não romper as bolhas (flictenas): Romper as bolhas expõe a ferida a germes e aumenta significativamente o risco de infecção.

2. Avaliação Inicial: O ABCDE do Queimado

Princípio Fundamental: Profissionais de saúde devem tratar a vítima de queimadura como um paciente politraumatizado até que seja comprovado o contrário. Lesões internas, fraturas ou trauma craniano associados podem estar ocultos e exigem intervenção prioritária.

A abordagem na sala de emergência deve seguir a padronização sistemática do ABCDE:

A (Airway) – Vias Aéreas com Proteção da Coluna Cervical

  • Estabilização Cervical: Manter a imobilização da coluna cervical caso haja suspeita de trauma associado.

  • Avaliação de Vias Aéreas: Verificar e remover qualquer obstrução por corpos estranhos.

  • Sinais de Lesão Inalatória: Suspeitar de comprometimento inalatório em casos de queimaduras ocorridas em ambientes fechados, presença de edema facial, rouquidão, estridor respiratório, vibrissas nasais chamuscadas e escarro carbonáceo.

  • Caráter Evolutivo: O edema de via aérea por queimadura é gradual e progressivo. Indica-se intubação orotraqueal (IOT) precoce na presença de edema importante de face/orofaringe ou insuficiência respiratória grave antes do fechamento total da via aérea.

B (Breathing) – Respiração e Ventilação

  • Oferta de Oxigênio: Administrar oxigênio a 100% por meio de máscara umidificada para todos os pacientes com suspeita de lesão inalatória.

  • Intoxicação por Monóxido de Carbono (CO): Em incêndios em locais fechados, a intoxicação por CO deve ser fortemente suspeitada. O CO reduz a oferta tecidual de oxigênio e provoca alteração do nível de consciência. Na suspeita, deve-se manter oxigênio a 100% por, pelo menos, 3 horas.

  • Mecânica Respiratória: Avaliar a presença de queimaduras profundas e circunferenciais no tórax que possam restringir a expansão pulmonar.

C (Circulation) – Circulação e Acesso Venoso

  • Acessos Venosos: Obter imediatamente dois acessos venosos periféricos de grande calibre. A preferência é por áreas de pele íntegra, mas o acesso pode ser puncionado através da pele queimada se necessário.

  • Ressuscitação Volêmica: Iniciar a reposição hídrica intravenosa com soluções cristaloides (como Ringer com Lactato) para repor a perda plasmática no terceiro espaço e prevenir o choque hipovolêmico.

  • Avaliação Periférica: Verificar pulsos, perfusão distal e tempo de enchimento capilar em membros com queimaduras circulares para evitar síndromes compartimentais.

D (Disability) – Disfunção Neurológica

  • Nível de Consciência: Aplicar a Escala de Coma de Glasgow e avaliar as reações pupilares.

  • Causas de Alteração Neurológica: Rebaixamento do nível de consciência (Glasgow < 8) pode ser sinal de hipóxia, intoxicação por monóxido de carbono ou trauma cranioencefálico associado.

E (Exposure) – Exposição Total e Controle da Hipotermia

  • Exposição da Lesão: Remover completamente o vestuário do paciente para avaliar com precisão a profundidade e a extensão da queimadura (Superfície Corpórea Queimada - SCQ) e identificar traumas associados.

  • Prevenção da Hipotermia: Logo após a exposição, deve-se cobrir imediatamente o paciente com tecidos limpos e secos. O ambiente da sala de emergência deve ser mantido aquecido para evitar distúrbios metabólicos e de coagulação decorrentes do resfriamento corporal.

Resumo 
Referências
bottom of page