top of page

Protocolos específicos e critérios de transferência 

Condutas para queimaduras elétricas e químicas, além dos critérios para encaminhamento à Unidade de Tratamento de Queimados.

Considerações em casos específicos

Resumo
  • Monitoramento eletrocardiográfico por 24 a 48 horas no trauma elétrico pelo risco de arritmias tardias.

  • Meta de diurese elevada para 1,5 mL/kg/h em lesões elétricas para prevenir lesão renal por rabdomiólise.

  • Irrigação copiosa com água por 20 a 30 minutos em queimaduras químicas, proibindo reações de neutralização.

  • Transferência para UTQ em queimaduras de 2º grau (>20% SCQ em adultos, >10% em crianças) e 3º grau de qualquer extensão.

  • Encaminhamento imediato para UTQ em lesões de áreas nobres, trauma elétrico/químico, lesão inalatória ou suspeita de violência.

O manejo inicial do grande queimado não se esgota na avaliação primária e na reposição volêmica padronizada. Determinados mecanismos de lesão exigem condutas adicionais, específicas e, muitas vezes, decisivas para o desfecho do paciente. Da mesma forma, nem todo paciente queimado deve permanecer sob os cuidados do serviço que realizou o primeiro atendimento: existem critérios objetivos que definem quando a transferência para uma Unidade de Tratamento de Queimados (UTQ) é obrigatória. Compreender essas particularidades é essencial para que o futuro médico atue com segurança diante de cenários que fogem do padrão habitual.

Trauma elétrico

As queimaduras elétricas apresentam um comportamento clínico particular: a lesão visível na pele costuma representar apenas uma fração do dano real, uma vez que a corrente elétrica se propaga por planos profundos (músculos, vasos e nervos) antes de dissipar sua energia. Duas consequências práticas decorrem diretamente desse mecanismo.

 

A primeira é o risco de arritmias cardíacas, que pode se manifestar de forma tardia em relação ao momento do acidente. Por esse motivo, o monitoramento eletrocardiográfico contínuo por 24 a 48 horas é obrigatório em todo paciente vítima de trauma elétrico, mesmo naqueles que se apresentam inicialmente estáveis e assintomáticos.

 

A segunda decorre da destruição maciça de tecido muscular, que libera mioglobina na circulação e predispõe à rabdomiólise, com consequente risco de lesão renal aguda. Nesses casos, a meta de reposição volêmica é mais exigente do que a utilizada nas queimaduras térmicas convencionais: busca-se uma diurese de pelo menos 1,5 mL/kg/h, mantendo a hidratação até que se observe o clareamento da coloração da urina, sinal indireto da redução da mioglobinúria.

Queimadura química

Nas queimaduras causadas por agentes químicos, o tempo de exposição do tecido à substância é o principal determinante da extensão da lesão, o que torna a rapidez da intervenção um fator central no prognóstico. As condutas iniciais fundamentais são:

  • Remover imediatamente roupas, joias e demais objetos contaminados, interrompendo o contato contínuo do agente com a pele.

  • Realizar irrigação copiosa com água corrente por, no mínimo, 20 a 30 minutos, diluindo e removendo o agente residual da superfície cutânea.

Um ponto de atenção especial merece destaque: jamais se deve tentar neutralizar o agente químico com outra substância, mesmo que teoricamente antagônica. Reações de neutralização são, em sua maioria, exotérmicas, ou seja, liberam calor e podem converter uma lesão química isolada em uma lesão combinada, química e térmica, ampliando significativamente o dano tecidual.

Critérios de transferência para Unidade de Tratamento de Queimados (UTQ)

Identificar precocemente quando um paciente necessita de cuidados especializados é uma habilidade tão importante quanto o próprio atendimento inicial. A transferência para uma UTQ está indicada nas seguintes situações:

  • Queimaduras de 2º grau que acometam mais de 20% da superfície corporal queimada (SCQ) em adultos, ou mais de 10% em crianças.

  • Queimaduras de 3º grau, independentemente da extensão acometida.

  • Lesões em áreas nobres: face, olhos, mãos, pés, períneo ou grandes articulações,  regiões nas quais a cicatrização inadequada compromete função e estética de forma desproporcional à extensão da área afetada.

  • Lesões por inalação, trauma elétrico ou agentes químicos, dado o potencial de complicações sistêmicas já discutido acima.

  • Vítimas de violência, maus-tratos ou tentativa de autoextermínio, situações que exigem, além do manejo clínico, uma abordagem multiprofissional e protocolos específicos de proteção e encaminhamento.

Lembre-se como calcular a SCQ

A estimativa rápida da superfície corporal queimada pode ser feita pela regra dos nove, que divide o corpo em segmentos correspondentes a múltiplos de 9% (ou frações) da área total. Em adultos, cabeça e cada membro superior correspondem a 9%, cada membro inferior a 18%, e tronco anterior e posterior a 18% cada. Em crianças, a proporção é ajustada: a cabeça representa uma fração maior da superfície corporal (18%) e os membros inferiores uma fração menor (13,5% cada), refletindo as diferenças de proporção corporal entre as faixas etárias.

 

Reconhecer esses critérios evita tanto a subestimação de casos graves quanto a sobrecarga desnecessária de serviços especializados, garantindo que cada paciente receba o nível de cuidado compatível com a complexidade da sua lesão.

Resumo visual

O esquema abaixo sintetiza os pontos abordados: de um lado, as particularidades de manejo em mecanismos específicos de lesão; de outro, os critérios que determinam a necessidade de encaminhamento a uma Unidade de Tratamento de Queimados.

Sem título_edited.jpg
bottom of page